quarta-feira, janeiro 11, 2012

na janela do meu refúgio.



É mais uma noite em que, debruçada na janela do meu refúgio, admiro-te solenemente. Nunca me parece ser suficiente redefinir com o meu frágil olhar esses traços que me fazem suspirar, nem descrever com uma ténue e estremecente voz o quanto o meu coração pulsa por ti. As palavras são demasiado simples e parcas quando se trata de exprimir o que provocas no meu dolorido interior, o mesmo que tantas vezes se sentiu ludibriado e usado. Por mais que as revolva, as certas devem ter ficado contigo no momento em que me roubaste o primeiro secreto olhar. 
Lembras-te do primeiro dia em que reparei em ti? Não sei se foi mútuo, mas recordo-me ainda da segunda-feira quente de Junho em que te vislumbrei, sentado no café, ás onze da manhã a saborear uma bica pingada de limão e um funesto cigarro, enquanto envergavas umas calças de ganga feitas á tua medida e uma camisa branca que se colava ao teu delgado tronco. Estavas absorto nos teus intrigantes pensamentos enquanto remexias no telemóvel. Recusei a tua presença naquele dia e amaldiçoei o facto de seres, a partir daquele instante, uma constante irrefutável naquela parte da minha vida. Comecei por bradar por meio de vocábulos repletos de fúria o quanto odiava que usurpasses esse lugar e refutei tudo o que tivesse origem em ti. Ignorei por meses a fio a tua presença quase diária no meu entristecido olhar e fui, grande parte do tempo, bem sucedida.
Quedo-me ainda na janela, enquanto rememoro um pouco mais. Continuas a falar incessantemente ao meu coração numa linguagem que não compreendo mas que neste ardor em que me afundo, imploro por entender. Recordo então, a forma como, com passos firmes e seguros, por vezes associados a um sorriso malicioso, miscigenados ainda com, quem sabe, uma falsa timidez, irrompeste pelo meu cerne, sem que eu me apercebesse. Foste mestre na arte de moldar os meus afectos e as tuas impressões digitais estão marcadas a sangue vivo no meu paupérrimo coração. Com meias palavras, olhares ocultos e sorrisos disfarçados foste conquistando pedacinhos do meu espírito que, sem defesas, foi aos poucos e poucos, rendendo-se ao charme que impregnaste em mim. Respiro a tua essência no que me é possível e, na distância que existe entre o meu quarto e o teu meio, é perceptível a qualquer alma atenta, o despedaçar deste animo entrelaçado num coração que deseja ardentemente vociferar que é teu, mas por ser de vidro recém fabricado, estremece por ter pavor que o deixes escapulir-se por entre os dedos e que se parta no ríspido chão - precisamente no teu meio que, ironicamente, faz também parte do meu inóspito universo...

2 comentários:

catarina disse...

Acho incrível eu conseguir identificar-me tanto com aquilo que escreves. Dou por mim a pensar que podia fazer minhas as tuas palavras minha querida!
Um beijinho <3

Anjo Selvagem disse...

Escreves lindamente! Adoro cada palavra. Parabéns :)