sábado, outubro 14, 2017

Na memória do passado.


Olhaste para mim (com um olhar que nunca antes tinha visto e por instantes, nem reconheci) e disseste-me com uma frieza impregnada na voz : "Nós ficámos na memória do passado.". Engoli a mágoa e sorri, fingindo que concordava com a tua visão da nossa história. Nunca pensei que fosses desprovido de qualquer sensibilidade senão naquele momento. Claro que trocámos ofensas e injúrias ao longo dos anos que me magoaram mas apenas por breves instantes. Perdoei sempre e qualquer falha, permanecendo a teu lado sempre que precisaste de mim, porque apesar de não saberes, eu ainda precisava mais de ti (acho que ainda preciso mas não digo a ninguém). Em altura alguma dos nossos momentos intermitentes, tinha sido rejeitada. As tuas palavras, memória e passado, enterraram todas as esperanças que ainda restavam dentro de mim. Após séculos contigo, eu deveria saber melhor, mas sempre pensei ser a excepção e o calor que chegava ao teu coração. De todas as vezes que me desiludiste, a dor partiu-me mas sempre arranjei maneira de voltar a ser inteira por ti. Mas como serei capaz de sobreviver á rejeição? Já nem me lembro do som da tua voz e as tuas palavras desvaneceram-se com o vento. Sou o que restou depois da tua partida. 

E se me perguntarem se alguma vez amei-te? Direi que nunca cessei.

sábado, agosto 05, 2017

Amor brutal.

Sempre considerei-te o meu amor brutal, mas nunca tive necessidade de o dizer em voz alta. Dizê-lo a quem quiser ouvir, torna-te demasiado real e díficil de esconder nas minhas lágrimas cobertas de tristeza perante um destinatário ausente. Conhecemo-nos cedo demais, sussurra-me o tempo. Nenhum de nós estava preparado para viver algo com a imensidão do que sentimos. Ninguém mergulha num amor assim sem sentir-se completamente assustado e, se alguém alguma vez o fez, tem muita coragem. Mas, entre nós que ninguém nos ouve, qualquer amor é brutal, senão não seria amor, não é? Os anos foram moldando-me e eu a acreditar que a felicidade era apenas mais uma palavra, que o amor não existia e que qualquer sentimento era morno e sem sabor. Depois que foste o amor da minha vida, as minhas concepções do mundo mudaram por completo. Já não posso voltar atrás no tempo e apagar a história que fomos. E isso dói: saber que não posso paralisar os momentos em que fomos presente e não passado; as vontades esmiuçadas e o desejo nunca esmorecido. E, saber que construíste muralhas imprenetráveis para esconder as defesas que foram sendo abandonadas ao longo dos dias. E brutal porquê? Brutal porque entreguei a minha alma ao mundo desconhecido que eras tu; que por acaso do destino, encaixou-se no meu por meros instantes. Já alguém se sentiu assim? A cair incontrolavelmente num abismo? A saltar ás cegas no escuro? A paixão é isso mesmo, uma queda livre. E, mesmo assim, tudo valeu a pena porque foste o amor da minha vida. E prometo-te que é mesmo verdade. Mas que devo eu fazer agora com o peito a transbordar de saudade quando outrora enchia-se de paixão? Onde devo guardar as palavras que não se transformaram em voz? O meu amor por ti foi, lentamente, transformando-se numa colecção de erros feitos á tua medida: gigantescos. Porque amar quem está irremediavelmente longe, não me aquece as mãos e muito menos ampara o coração. Considerei-te o meu amor brutal não porque o fosses em presença, mas porque o que deixaste dentro de mim, aniquilou-me... E eu ainda consigo sentir a raiva.