sábado, agosto 05, 2017

Amor brutal.

Sempre considerei-te o meu amor brutal, mas nunca tive necessidade de o dizer em voz alta. Dizê-lo a quem quiser ouvir, torna-te demasiado real e díficil de esconder nas minhas lágrimas cobertas de tristeza perante um destinatário ausente. Conhecemo-nos cedo demais, sussurra-me o tempo. Nenhum de nós estava preparado para viver algo com a imensidão do que sentimos. Ninguém mergulha num amor assim sem sentir-se completamente assustado e, se alguém alguma vez o fez, tem muita coragem. Mas, entre nós que ninguém nos ouve, qualquer amor é brutal, senão não seria amor, não é? Os anos foram moldando-me e eu a acreditar que a felicidade era apenas mais uma palavra, que o amor não existia e que qualquer sentimento era morno e sem sabor. Depois que foste o amor da minha vida, as minhas concepções do mundo mudaram por completo. Já não posso voltar atrás no tempo e apagar a história que fomos. E isso dói: saber que não posso paralisar os momentos em que fomos presente e não passado; as vontades esmiuçadas e o desejo nunca esmorecido. E, saber que construíste muralhas imprenetráveis para esconder as defesas que foram sendo abandonadas ao longo dos dias. E brutal porquê? Brutal porque entreguei a minha alma ao mundo desconhecido que eras tu; que por acaso do destino, encaixou-se no meu por meros instantes. Já alguém se sentiu assim? A cair incontrolavelmente num abismo? A saltar ás cegas no escuro? A paixão é isso mesmo, uma queda livre. E, mesmo assim, tudo valeu a pena porque foste o amor da minha vida. E prometo-te que é mesmo verdade. Mas que devo eu fazer agora com o peito a transbordar de saudade quando outrora enchia-se de paixão? Onde devo guardar as palavras que não se transformaram em voz? O meu amor por ti foi, lentamente, transformando-se numa colecção de erros feitos á tua medida: gigantescos. Porque amar quem está irremediavelmente longe, não me aquece as mãos e muito menos ampara o coração. Considerei-te o meu amor brutal não porque o fosses em presença, mas porque o que deixaste dentro de mim, aniquilou-me... E eu ainda consigo sentir a raiva.

terça-feira, agosto 01, 2017

Caixa de música.

Guardei o meu amor por ti numa caixa de música e esqueci-me, propositadamente, onde deixei a chave. Se esquecer onde escondi os meus sentimentos, talvez um dia o meu coração cesse de perguntar por ti a cada instante. E, mesmo que o meu peito sinta-se apertado pela saudade desenfreada que se agarra a mim, eu vou fingir que nunca senti esta destruição inexplicável que aos poucos vai matando-me por dentro. Há dias que abrir os olhos torna-se demasiado doloroso, só por saber que as tuas palavras correm noutra direcção e que os teus braços estão, enquanto eu choro, a enredar uma outra alma no teu corpo. Nos dias mais calmos, eu sorrio, calo a voz teimosa do coração e esqueço o teu nome, o teu odor inebriante, a cor dos teus olhos e a tua voz. Depois lembro-me da maldita chave que não consigo olvidar onde deixei e volto a abrir a caixa de música, deixando-me inundar pelos sentimentos que queria deixar no passado. E volto ao ínicio do processo de esquecimento, tendo de guardar novamente tudo o que nunca consigo desprender de mim, fingindo que não deixei uma parte de mim, a que insiste em amar-te apesar de tudo o que me fazes sofrer, encarcerada longe do meu coração. E sorrio por entre lágrimas, dizendo a quem perguntar que estou bem ( mas não estou).