quarta-feira, dezembro 07, 2011

rosas brancas


O céu estendia-se pelo horizonte, envolvido por um admirável cobertor de veludo azul marinho, decorado por minuscúlos diamantes e uma grande e luminosa lua cheia. Não havia uma única nuvem cinzenta á vista e tudo estava conforme planeado. Na relva podiam-se ver cadeiras alinhadas exiguamente e um corredor no meio. O mesmo estava ornamentado com linho branco que se estendia uniformemente. As cadeiras estavam ocupadas principalmente por pessoas que ela não conhecia e não se importava conhecer. Ele também não conhecia grande parte das pessoas. Ela colocou-se ao fundo, ansiosamente aguardando que tudo começasse. Tinha, entre as suas trémulas mãos, um pequeno bouquet de rosas brancas. Rosas que simbolizavam não apenas um amor romântico mas eterno. Um amor puro.
Ele aproximou-se lentamente dela e viu-a observando tudo em seu redor. Ela estava nervosa. Mais que nervosa. E ansiosa. E assustada. E perdida. E se tropeçasse? E se alguma coisa corresse mal? Não poderia, ela esperou por este dia demasiado tempo. E ele também. Ele virou-a de modo a que ficasse de frente para ele e olhou-a intensamente. Ela conhecia perfeitamente os seus traços mas nunca cansar-se-ia de os admirar. A pele perfeita, os olhos compreensivos que fizeram-na abrir-se completamente porque ele era o único que conseguia observar a sua alma. O sorriso cativante no seu rosto. O lábio inferior que era ligeiramente maior do que deveria ser e impedia-o de ser completamente perfeito - uma falha que ela tinha reparado, um defeito que ela achava enternecedor, uma falha que o tornava real.
Ele abraçou-a com força e beijou-lhe a testa. Sussurrou palavras suaves de conforto nos seus ouvidos enquanto a enredava com os seus longos braços, sentindo-a desconfortável. " Tudo correrá bem", disse ele. Ela não lhe respondeu. Ela não contestou. Mas ela sabia, sabia que nunca ficaria bem. Ele era o seu melhor amigo. Ela a melhor amiga dele. E ela tinha esperado eternamente por este dia. Sonhou com ele. Esperaram ambos durante muito tempo. E agora, finalmente, estavam aqui, juntos. Mas ela não sabia exactamente o que fazer. Ela sentiu-o afastar-se e beijar-lhe a testa uma vez mais. Recompôs-se o melhor que conseguiu e agarrou-se ás rosas brancas com intensidade. Rosas brancas eram uma particularidade dele, disse-lhe um dia. Confidenciou-lhe que a rapariga com quem viria a casar traria consigo este bouquet quando se tornassem um só. E cumpriu a sua palavra. Sorriu-lhe de forma maliciosa e piscou-lhe o olho. Ele percorreu o corredor e deteve-se no lugar adequado. O lugar onde o noivo deveria ficar. Enquanto observava-o tomar o seu lugar, ela reparou que dentro das decorações brancas, haviam traços de lilás. Estranho. A cor preferida dele era azul. Mas de qualquer modo, não tinha sido ele a organizar o evento.
O piano começou a tocar e ela sabia que tinha chegado a hora. Baixou o olhar e desfilou pelo corredor de acordo com a música. Tal como ela tinha praticado. Não levantou o olhar uma única vez, nem prestou atenção a quem estava sentado. O piano continuava a tocar e em poucos segundos teve que levantar o olhar e vê-lo. O seu melhor amigo. O homem por quem ela sabia estar apaixonada até ao fim dos seus dias. E os olhos dele brilhavam, as lágrimas encharcavam-lhe as pupilas. o seu sorriso era aberto e genuíno e o o olhar no seu rosto indicava que via o ser mais bonito do mundo, a pessoa que ele mais amava. E era, realmente, o que acontecia. Ele olhava para a sua noiva.
Ela sorriu-lhe quando chegou ao seu lugar. Os seus olhos não viam ninguém a não ser a sua adorável noiva. Olhou para ela com o olhar repleto de uma paixão tão intensa que acreditou serem os olhos de um homem possuído. Possuído e completamente apaixonado. O casal fez os votos para que o sol, a lua e as estrelas presenciassem este amor. Após uma troca de aneis e um simples beijo - o fim. Estavam casados. Eram um só na presença das estrelas, da lua e aos olhos de Deus.
A multidão dispersou-se na direcção do copo de água. A cerimónia tinha terminado. Ela abraçou-o. E ele abraçou-a de volta. E ela disfrutou deste momento. "Obrigado. Vou sempre precisar de ti, sabes disso". Murmurou contra o cabelo dela. " Eu sei", sussurrou ela. Ela afastou-o e endireitou o cabelo. Ele riu-se. Ela sorriu e piscou os olhos por entre lágrimas negras. "Não!Aqui não. Agora não!" ordenou a si própria. Ele desviou o olhar e sorriu-lhe. Ela correspondeu a esse sorriso e acenou, ainda com o pequeno ramo de rosas brancas na mão. Neste momento,colocou o seu braço em redor da noiva e dirigiram-se para os convidados. A noiva que ele tanto amava. 


A noiva que não era a sua melhor amiga. Retirou uma pequena rosa branca da lapela do casaco e entregou-lhe. Ela colocou-a no cabelo - sem saber realmente o que significava para ele.
Ela esperou eternamente por este dia. Ela sonhou com este dia. Mas não desta maneira. Nos seus sonhos, ela era a noiva. Não a dama de honor. Não a dama de honor com as impostas rosas brancas. Não apenas a melhor amiga.

Mas tudo tinha terminado.