O mar ainda tem o mesmo cheiro, as ondas ainda rebentam da mesma forma, o sal continua igual. As almas que passam por mim na rua são as mesmas. Os autocarros em que agora desloco-me, lembram-me que fui retirada do mundo de maneira abrupta e inesperada. As músicas no meu ouvido são como vidro estilhaçando pelo chão. O sol nasce de forma estranha, como se quisesse para sempre ficar escondido atrás das nuvens. Há uma melancolia nas estradas, uma nostalgia nas tardes. As sombras das árvores não me convidam para sentar-me debaixo delas e eu tomo o meu café sem gosto nas manhãs agora monótonas. A lua ainda conversa comigo, mas de forma fria e em noites fugazes. Os finais de dia são particularmente dolorosos. O silêncio esmaga-me o coração e o vazio que trago no peito é devastador. De vez em quando ainda leio as tuas palavras mas prefiro evitar para não sangrar tanto. Era tão bom quando estavas aqui. Luto contra a minha memória para que os traços do teu rosto não se desvaneçam nem o som da tua voz caia no esquecimento. O teu toque suave parece agora uma lembrança longíngua e a minha pele gelada ressente-se com a saudade de ti. Estou tentando consumir a falta que me fazes, no entanto é ela que me consome. O meu nome metamorfoseou-se para saudade e este amor que me corre ainda nas veias melindra-se. O coração está tão pequenino de ti e tão cheio de arrependimento. Se o tempo fosse meu amigo, apagaria os meus erros e estarias ainda nos meus braços. Mas não, estou sozinha. Culpa minha, confesso. Confiei que este amor seria porto seguro depois de derrubadas as muralhas que entre nós se erguiam. Não sei ser paciente, admito. Queria que este sentimento permitisse descansar os olhos e voltar a dormir feliz por ser a tua menina. Queria que este medo que sinto de nunca mais voltar a ver-te embalasse-me nas noites intermináveis e os pesadelos rejeitassem o meu regaço. Não merecia um cuidar e um amar como os teus e por esse mesmo motivo permaneço desamparada. Estou sobrevivendo sem ti...

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