segunda-feira, abril 04, 2011

Uma questão de sabor

Que importa a cor da pele… clara, escura? Que importa se o casaco é negro ou castanho, curto ou comprido? Nada disso pesa na cor do coração. Está tão cinzento lá fora como está no seu peito lá dentro. Acreditas, meu amor, que o coração pode ser cinzento? Ela entrou. Encostou a porta com cuidado, não fosse acordar os espíritos malignos adormecidos na alma triste. Ela entrou. Arrastou a nostalgia de um sonho vago para dentro do café. Como se os sonhos admitissem ser arrastados, como se os sonhos fossem capaz de recusar ir simplesmente connosco se lhes pedíssemos. Sentou-se na mesa ao canto da sala. No devaneio poético desse sonho, ela era capaz de afirmar que o escuro da sala enegrecia ainda mais o dia lá fora. Chovia contra os vidros das janelas tatuados com poesias soltas de poetas vagamente conhecidos. Reparou que nenhum sabia um terço da dor que era estar sozinha na mesa do canto e procurou um que descrevesse num verso metade da coragem que significava permanecer nela. Não viu, não leu, não encontrou. Lá do canto não se ouvia a chuva. Talvez a tua ausência lhe imobilizasse os sentidos, talvez a saudade fosse mais ruidosa, talvez a música incessante do coração abafasse a chuva. Aquela música repetia-se minuto após minuto, no interior do seu coração, camuflando os silêncios soltos que deixastes esquecidos no olhar. Como é que um rádio tão cinzento como o coração dela podia ainda tocar? Tocava e não era a tua música, era a dela. Pergunto eu: se o destino a talhara para te amar, porque não tinham ambos a mesma música? Talvez o destino dela não fosse amar-te.




A empregada aproximou-se.
O que vai ser?
Quis responder: Um quilo, duzentas e quarenta gramas de amor e uma fatia pequena de carinho, se faz favor. Pago-lhe com toda a saudade que trago na carteira em moedinhas de gratidão.


Mas não, não disse. Não era o tipo de pedido a fazer a qualquer coração. Não era o tipo de produto que qualquer um entregasse num bule de chá ou num prato de bolo. Apenas tu farias interromper a música do rádio dela para lhe fazer esse pedido. E isso seria num lugar onde o negro dos teus olhos fosse mais forte do que o cinzento do coração dela. O que vai ser então? Pensou num simples café, mas tu eras suficiente para lhe tirar o sono e lhe cortares a respiração. De qualquer forma, sem ti, ela jamais se sentiria demasiado adulta para ousar o sabor amargo do café, não sem ti, sem a tua boca onde se consolar dessa amargura. Ela havia-te amado em segredo em cada gota de chuva e não ousava afogar esse frio num copo de chocolate quente e num crepe docinho. Ela entrou e arrastou com ela um sonho onde te guardou. A música badalava o coração dela, a melancolia abraçava-a naquela mesa do canto e dançava nos olhos dela. O olhar dela perdera-se entre a pergunta e a resposta, algures presa na porta onde a chuva continuava a bater, algures entre a esperança de que o escuro lá de fora se transformasse na tua presença. Nesse momento, se tu entrasses, talvez ela pedisse um crepe de chocolate ou arriscasse um chá de camomila, pois tu serias chocolate contra as borboletas do estômago e os teus olhos tranquilizariam o rádio do coração. Mas tu não entraste.



Meia de leite e uma torrada.
Respondeu-lhe, num olhar perdido.

Eu prometo não perguntar mais nada, só isto: Se ela não foi feita para te amar, porque não foi ela capaz de pedir um crepe de chocolate e um chá de camomila? Na mesinha do canto de um café com poesia nas janelas, deixei-te um segredo: ela sou eu e o sonho que arrastei nesta história fui eu quem o guardei nas gotas de chuva. Acreditas, meu amor?

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