terça-feira, agosto 11, 2009

Your heart was dying fast


ÁS VEZES PARECE-ME QUE TENHO VIVIDO NO SONHO DE OUTRA PESSOA, NUMA VIDA PERFEITA, EM TODAS AS COISAS QUE NÃO DISSESTE QUANDO ASSUMISTE UM COMPROMISSO, E EU FECHEI A PORTA A TODOS OS HOMENS QUE ME PUDERIAM TER AMADO MUITO MAIS QUE TU.

Já tem algum tempo que te vi e mais ainda que falámos;lembro-me disto enquanto atravesso o longo corredor do salão onde nem devia estar.Estamos no inverno, faz frio lá fora mas nesta imensa e sombria mansão, o ambiente é caloroso e todos parecem infinitamente felizes.
Vejo-te com um copo de champanhe na mão,sorrindo com a tua noiva ao teu lado, a mão dela perfeitamente arranjada pela manicure percorrendo delicadamente a tua cintura. Começo a me sentir enjoada. Já terminei a quarta flute de champanhe desde que cheguei á duas horas e neste momento, enquanto vejo a felicidade patente no seu sorriso em resposta a algo que a tua mãe lhe disse, a minha mente implora-me por gin. O champanhe já não faz efeito algum. No entanto, considerando que estou num evento supostamente cordial e respeitável, não ha vodka, whisky, ou até mesmo vinho seco ou tinto para disfarçar os meus nervos, contento-me com uma quinta taça de champanhe enquanto miro os empregados em uniforme a desfilar com as suas douradas bandejas.
Não era suposto eu estar aqui, de modo algum; há muito tempo que não faço parte da tua vida, portanto ser convidada para a tua festa de casamento seria provavelmente a última coisa que estaria á espera. Claro que não foste tu que me convidaste, claro que não. O destino quis pregar-me uma partida desumana ao planear que eu aparecesse num dos mais formais copos d'agua financiado pelo irmão do noivo. Aliás, o destino já havia sido suficientemente cruel ao permitir que minha prima, sangue do meu sangue viesse a namorar e posteriormente tornar-se noiva do irmão do homem que eu sempre amara. Obviamente, havia sido minha prima a me enviar um ornamentado e perfumado envelope que ostentava a obrigatoriadade da minha presença na malfadada festa... Sendo extremamente sincera, sabendo que um dos seus melhores amigos estava extremamente interessado em me saltar para cima, não hesitei quando o mesmo me convidou para ser o seu par neste evento. Nem pensei nas consequências. Era uma desculpa para ir ás compras e desfilar com uma roupa lindissima - era razão quase suficiente para mim. Mais ainda, quando nos encontrássemos, poderia fazer a pergunta que nunca fiz - "PORQUÊ ELA?" Foi demasiado cruel sair do elevador demasiado glamorosa, convencida que tudo iria correr bem, sentindo-me minimamente confortável na minha pele, apenas para me deparar com a cara da tua mãe a olhar para a orquestra ao vivo.
A minha taça de champanhe está desastrosamente quase vazia e o meu pseudo-namorado (porque supostamente naquele dia éramos um casal)estava a tentar engatar uma das amigas da noiva. No decorrer da tarde havia sido apresentada fui apresentada a um casal amigo dos noivos,apertando gentilmente as mãos dos dois e suplicando que os meus olhos não estivessem demasiado maquilhados. Notei que o fato do rapaz era obviamente caro, feito á mão e ficava-lhe imensamente bem, enquanto a sua esposa usava pestanas falsas demasiado longas que assustariam a maior parte das crianças. Ambos pareciam demasiado austeros, da maneira que apenas familias de alta sociedade costumam ser. Sorriram-me de forma bastante contida,elogiando o longo vestido vermelho que eu envergava e que eu tinha comprado especialmente para esta ocasião e logo depois afastaram-se subtilmente á procura de convidados com conversas mais interessantes para partilhar.As minhas costas descansavam agora na ponta extrema da mesa com a comida,cobrindo os garfos, e de repente apercebo-me de quão apertado me ficava este vestido.Já pela segunda vez no decorrer da cerimónia, sinto que vou ficar enjoada.
Não consigo evitar olhar para o teu noivo; parece saido de um sonho, parte de uma peça de teatro,em que eu faço parte da plateia sem saber qual o tema.Por breves momentos, eu consigo esquecer-te e observar-te objectivamente ao mesmo tempo que elogio o teu progenitor com o qual fizeste entretanto as pazes e tentaste impressionar com a rapariga que achaste ser muito melhor que eu.Talvez tenhas razão. O cabelo dela está mais bem tratado que o meu, com madeixas louras com tons de mel perfeitamente executadas, sinto o meu sangue a ferver de inveja. Ela parece extremamente confortável nos seus sapatos Jimmy Choo com salto agulha de prata, apoiando-se sem pudor nenhum no teu lado direito,mão esquerda á volta da tua cintura a mostrar o diamante Harry Winston que pertencera á tua avó. Eu nunca, mas mesmo nunca conseguiria usar sapatos Jimmy Choo e aquele anel nunca, mas mesmo nunca ficaria bem no meu dedo. Quanto mais ela sorri e ri-se ( com o tipo de facilidade que prova que ela nem se está a esforçar,ela está mesmo a ter o melhor dia da vida dela), mais eu a ODEIO. Consigo ver pela sua maneira de estar que ela não faz a minima ideia que eu estou presente. Mas considerando que há uma hora atrás ela disse-me o quanto adorava os meus brincos enquanto todos comiam aperitivos, penso que a teoria mais apropriada seria que ela não sonha sequer quem eu sou.
Não te culpo por não lhe contares quem sou eu;se lhe contasses,consigo ver ela se tornar no tipo de mulher que não tem ciumes nenhuns (ou talvez não). Essa é outra razão que me a faz odiar tanto. Ela parece agora tão confiante, tão segura ao teu lado agora que acedeste ao seu pedido de casar, que imagino que se lhe falasses de mim, da tua ex-amante que amaste infinitamente e a quem ensinaste tudo o que existe neste mundo, ela mostrar-se-ia ligeiramente perturbada e replicaria " eu confio o suficiente em ti" e ficaria contente por teres alguem assim no teu passado. Ela nunca, mas nunca esperaria pela oportunidade de mexer no teu telemovel para ver o registo de chamadas ou as sms recebidas/enviadas, nem acederia ao teu msn e hi5 para ler conversas entre nós. Nunca telefonaria aos nossos colegas do secundário para lhes perguntar como era a nossa relação na altura. Todas estas seriam reacções tipicas da minha parte. Consigo sentir o meu coração reduzir-se á sua insignificância e com ele vai-se a ultima gota de champanhe, ficando apenas com o copo vazio na minha mão.
Finalmente, sorrateiramente por trás, sinto uma mão a me tocar no cabelo, descendo para me tocar na pele nua,ate que vejo que se trata do meu pseudo-namorado. Para manter as aparencias,ele vem ocasionalmente ter comigo e comporta-se como um namorado dedicado, desculpando-se por me deixar sozinha demasiado tempo enquanto fala com os convidados que conhece na sua maioria, ao contrario de mim. Os restantes convidados têm espelhado nos olhos os seus pensamentos :que fazemos um bonito casal, e algumas mulheres até pensam e comentam quase sussurando que consegui curar o mulherengo e mantê-lo fiel. Naquele momento, em vez de me beijarna face como de costume, ou oferecer-me um bombom, deu-me mais uma flute de champanhe e inclinou-se na direcção do meu pescoço sussurando-me ao ouvido: " OBRIGADO POR TERES ACEITE SER A MINHA COMPANHIA ESTA NOITE." Conseguia adivinhar em que estava a pensar."ESSE VESTIDO FICA-TE MARAVILHOSAMENTE BEM, MAS MAL CONSIGO ESPERAR PARA O DESPIR. JÁ ESTOU A DELIRAR AO IMAGINAR TODAS AS COISAS QUE PODERIA FAZER PARA TE AGRADECER." Ao proferir estas palavras,afastou-se e beijou-me a face tão rapidamente que nem senti o beijo, quanto mais a sua mão no meu rabo que demorou 3 longos segundos, e mais uma vez desapareceu por entre a multidão. Levei a mão á cabeça,deixando a tensão do momento arrefecer por debaixo do cabelo e tomei outra bebida.
Não sei quanto tempo fiquei ali imóvel,incapaz de planear uma saida daquela mansão. Era tortura, estar ali sentada, vendo-te falar com os familiares dela de uma maneira que o homem que eu amava nunca faria. Quando eu te conhecia, quando eras meu, detestavas este tipo de vida :casamentos, compromissos, nunca tinhas assumido rigorosamente nada com ninguem. Nós eramos novos e estupidos na altura em que nos conhecemos e eu sentia-me extremamente atraida por ti embora sempre o tivesse negado.
Nunca houve nada nessa altura porque já então não era eu a pessoa ideal para um compromisso.
Pelo que vejo da tua nova conquista, duvido que ela consiga tomar banho em menos de trinta minutos. Juntos aposto que eu e tu conseguiamos entrar e sair em quinze minutos (sabes, se tivessemos mesmo a tomar banho e não a fazer coisas pervertidas, apenas no duche juntos porque assim poupariamos imensa agua e... alguma vez perderiamos a oportunidade de vermos os nossos corpos nus?) Apenas o cabelo perfeito dela deveria levar o tempo que nos haviamos idealizado, com as suas raizes descoloradas e volumosas e caracois com estilo sem esforço algum. Ela é muito mais magra que eu, facto que ainda me faz gostar dela menos e ela parece tão... tão esculpida.PERFEITA. Não admira que a tua mãe a tenha abraçado tão efusivamente, tão abertamente quando se cumprimentaram. O teu pai até te cumprimentou com um aperto de mão, dando-te uma palmadinha nas costas, o tipo de gesto familiar que nunca vi enquanto era eu que estava a teu lado. Aqueles anos que nos separaram tinham claramente mudado toda a tua vida; parecia que agora, enquanto eu ficava deslumbrada pela tua beleza de noivo perfeito e moldado para uma vida de casado, que EU não tinha mudado nem um pouco.
Após isto, eu não poderia suportar muito mais. Pousei o meu copo vazio na mesa e envolvi os meus proprios braços á volta do peito, um mecanismo de defesa que eu só usava quando discutiamos. Virei as costas e afastei-me da mesa, de todos os convidados a vos dar os parabens por um casamento tão bonito e abençoado pela chuva que se fazia ouvir neste sombrio dia de Novembro. Perguntavam incessantemente para quando um irmão ou irmã para os dois filhos dela,desta vez sendo ele o pai. E afastei-me cada vez mais até deixar de ouvir qualquer conversa. Precisava de um sitio silencioso, frio, onde eu poderia me sentar e fingir que estava noutro sitio qualquer. Não olhaste para mim o dia todo- duvido que soubesses que estava aqui. O meu "namorado" nem me viu quando passei por ele, afastando-me da multidão,procurando uma casa de banho ou o armário, ou um portal do tempo onde eu me pudesse perder. Porque eu sou assim e porque eu estava a me afogar em pena de mim propria e inveja que me poderia literalmente tornar verde, agarrei em mais duas taças de champanhe de um empregado que passava ali perto e meti-me na primeira porta que encontrei, fechando-a logo que entrei.
Nem me importava estar no armário da limpeza (ao menos não seria encontrada). O chão estava cheio de baldes e garrafas. Sentei-me num banco ao fundo (estava surpreendida o quão espaçoso poderia ser um armario,sem ser propriamente um quarto)tirando os meus sapatos desconfortaveis.Respirei de alivio, os meus pés e o meu coração já nao estavam sujeitos á crueldade do destino. Enquanto estava ali sentada, no meu vestido semi-formal é quando eu finalmente decido ficar enjoada. Não era o tipo de má disposição impregnada pelo constante consumo de bebidas alcoólicas, mas pior ainda, causada pela minha baixa auto-estima e inveja desmesurada. Era eu que deveria estar ali.Queria o meu lugar de volta. Aquele era o meu sobrenome, a minha vida,o meu mundo, deveria ter sido o meu anel Harry Winston até que tudo mudou sem sequer me dares uma razão válida (nem seque uma razão se deste, muito menos válida). Um dia percebeste que eu não era suficientemente boa para ti; que merecias melhor.
Levaste o tempo que eu levei a beber as duas taças de champanhe a entrar no armário. Quando a porta abriu, pensei que tinha sido apanhada - talvez a empregada tivesse vindo buscar algum produto ou o meu suposto namorado tinha descoberto a minha ausencia. Nem sequer olhei para cima quando ouvi a maçaneta da porta a rodar,apenas senti algumas madeixas do meu louro cabelo que havia levado vinte minutos a arranjar deslizarem para a minha cara. Deve ter funcionado,porque quando ouvi alguem chamar o meu nome, com uma voz tão familiar que eu seria capaz de reconhecer em qualquer parte, levantei a cabeça e afastei o cabelo. E ali estavas tu. Estavas parado á minha frente, tão venenoso e perfeito, como sempre foste, num fato que eu teria jurado que nunca usarias. Sorriste-me e estendeste-me a mão.Os meus olhos olharam para cima para os teus,curiosos, perguntando-me, mas antes que o meu cerebro pudesse assimilar o que fazias tu exactamente metido num armário no dia do teu casamento com a tua ex-colega, ex-amiga,ex-namorada,ex-amante, já estava a entrelaçar os meus dedos nos teus.
Não demoraste tempo praticamente nenhum a me tirar o vestido. Foste provavelmente mais eficiente do que o pseudo-namorado teria sido mais tarde. Apenas alguns fechos e um laço desfeito e ali estava eu, roupa interior descoberta, enquanto o teu sorriso aumentava. A unica covinha que tinhas, esforçava-me eu por alcançá-la... sempre foi a minha parte preferida em ti, a par com os teus lindos olhos cor do céu. Era este o ambiente mais calmo que eu iria ter. Após isto, foram um rodopio de caricias, as minhas mãos alcançando a fivela do teu cinto, as tuas maos desapertando o gancho na parte de trás da lingerie pela qual paguei uma fortuna(e passei demasiado tempo desejando que tu a visses).Até hoje não sei porque aconteceu - simplesmente aconteceu.Havia demasiado alcool no meu organismo e tu estavas demasiado delicioso no teu fato, conseguia perceber porque a tua noiva nunca te deixaria em paz. Mas durante aqueles vinte minutos, com as minhas costas encostadas á parede, uma perna no banco,ainda de saltos,com as tuas calças pelos tornozelos e um sorriso na cara.

FOI PROVAVELMENTE O MELHOR SEXO QUE FIZEMOS.

Quando tudo acabou,(depois de teres posto a tua mão na minha boca para oprimir o grito que sabias que iria dar), fiquei a olhar para ti enquanto te vestias. Sentia-me terrivelmente culpada e voltei a por as mãos á volta do meu peito, metendo-me de volta no meu vestido, o melhor k conseguia sem mostrar demasiado. Naquele momento, no entanto, de costas voltadas para ti, beijaste o meu ombro e puxaste-me o vestido para sempre apertando o fecho e refazendo o laço. Afastaste as minhas maos do meu peito e puseste-as ao meu lado por breves momentos, nao me olhando nos olhos, num momento de ternura indescritivel.Puxaste-me para ti e abraçaste-me com a força de quem abraça quando sabe que o mundo vai acabar... Senti lagrimas nos meus olhos. E nos ultimos segundos que te vi antes de terminar o teu copo d'agua e partires em lua de mel,antes de voltares a trabalhar na oficina de mecânica, antes de teres dois filhos, antes de morreres numa idade avançada durante o sono, gentilmente viraste-me , beijaste-me a testa, acaraciando-me a face como tantas vezes antes fizeras. Inclinaste-te uma ultima vez em direcção ao meu ouvido e sussurraste naquela voz rouca que tanto adoro: "FUI EU QUE TE ENVIEI O CONVITE..."
Apos partires, chorei.Chorei e chorei e chorei naquele armário, no banco, naquele vestido vermelho, as lagrimas a cair no tecido até o meu par me encontrar devido ao desespero que se ouvia através das paredes. Pela altura que voltámos para o salão principal, tu e a tua esposa já tinham partido há algum tempo.O meu coração partiu-se, com cinco anos de atraso, finalmente acordando para a realidade, sabendo que aquela foi a ultima vez que te vi e a primeira vez que me apercebi verdadeiramente que tu tinhas finalmente e derradeiramente partido e que nunca, mas mesmo nunca serias meu...

2 comentários:

Lauh disse...

Este texto está maravilhoso :)
beijinhos*

Vanessa disse...

obrigada :)