quinta-feira, janeiro 11, 2007

O meu lado esquerdo...


Depois de uma noite de facadas no peito, que me deixa a tremer e a soluçar, sem me deixar pregar olho, recebo um abraço com cheiro a malmequeres e papoilas. Há uma lágrima que escorrega e me desliza pela cara, mas depressa a limpo e digo 'Estou bem...'.
Mas, nessa altura, já sei: não se engana alguem.

Visto o casaco mais quente que tenho no armário. Não é meu, mas sabe melhor vesti-lo sabendo disso.
É dele. Deu-mo num dia gelado, porque estava a morrer de frio (sim, ele tem razão: ando sempre mal vestida). Trouxe-o para casa e ficou meu, mas faço tenções de lho devolver no final do Inverno. Fica-me enorme. Tapa-me as mãos e quase que me chega aos joelhos, mas eu amo-lo por isso mesmo.
Meto o capucho na cabeça, enfio as mãos nos bolsos, e saio.

Para mim, nunca um dia esteve tão gelado. Nem nunca uma noite foi tão longa.
As lágrimas são demasiadas para dois olhos só, e caem umas a seguir às outras. Nunca, nunca senti tanto: o medo, o frio, a raiva e a morte.
Procuro os phones nos bolsos de trás das calças, mas não os tenho comigo. Tenho pena. E canto sozinha, sem música.

‘A Vanessa é poética.‘, disse uma noite o Roberto.
E a única coisa que me dá interesse, quando conheco alguém, é tentar descobrir a sua poeticidade. Há aqueles em que se vê logo, assim que dizem as primeiras palavras, que não vivem da poesia. Nem tão pouco de Letras ou sentidos. Há outros que tentam, mas é só para impressionar. E há aqueles (tão, tão poucos), perdidos em cantos remotos, que transpiram poeticidade. Até hoje, só conheci meia dúzia de seres assim. E nunca desejei tanto ter um deles ao teu lado, como nesta tarde.

Os filhos amam os pais. Os pais amam os filhos. É assim que deve ser.
Mas, de repente, já nem nisso penso. Tenho uma dor demasiado profunda no peito para conseguir raciocinar.
Mistura-se tudo.
Choro pelo amor que desapareceu, de quem me fez existir. Choro pelos sorrisos dos príncipes, que já não são capazes de calar os risos das fadas más. Choro por já não ser capaz de lhes pintar um céu roxo e cor-de-rosa, no tecto do quarto, para eles poderem sorrir cada vez que abrem os olhos.

Amas tanto, pobrezinha.
Sentes tanto... O mundo inteiro, dentro do teu pequenino coração.
E amaste sempre mais as fadas e os duendes que não tocaste, do que todos os Homens que se cruzaram contigo nessas ruas e te fascinaram.

Quando finalmente chegas até ele, percebes que não foi uma surpresa agradável. Está admirado por te ver, e nem sabes se é de trazeres o seu casaco vestido. Pedes-lhe, a desmoronar por dentro, que fuja contigo. Basta apanhar um avião, para se ser feliz. Só precisas dele para partir.
Percebes logo que te vai dizer que não. Ouves umas desculpas no ar, mas não são mais do que isso: desculpas. Por fim, ouves o definitivo não como mais uma faca espetada contra o peito.
Viras costas e desapareces, com as lágrimas a dançarem-te nos olhos.

Sabes que o Amor te devia salvar e ajudar a escapar da morte, e sentes uma raiva profunda de ele, em vez disso, te estar a cavar a sepultura. Queres bater-lhe e gritar-lhe que não precisas de um Amor egoísta, mas já não tens forças. Limitas-te a bater em retirada, com os olhos já mais verdes que castanhos.


(A Vanessa só precisava de ir até ao aeroporto, onde um abraço quente a espera e lhe quer secar as lágrimas.
A Vanessa nunca precisou tanto sair daqui e ir até um sítio melhor, com Amor...
É só um avião. E ninguém a deixa ir ser feliz.)

1 comentário:

Kuska disse...

Li alguns textos, e não posso ficar indiferente para dizer que são maravilhos. Adorei de verdade. Continua