sexta-feira, julho 14, 2006

Tenho-me somente a mim...


Pegaram em mim e adormeceram-me, à força.
Lembro-me de ver coisas brilhantes e fininhas e pontiagudas, antes dos olhos se fecharem.Quando uma delas veio em direcção a mim, acho que comecei a sentir os Tic – Tac’s do relógio a aumentarem de velocidade... Os Tac’s caíam apressados aos pés dos Tic’s, e os Tic’s não se faziam esperar. Uma melodia frenética, que me fazia sentir aquele maldito ponteiro dos segundos dentro do peito.
Depois vim a perceber que, possívelmente, era só o meu coração a bater mais depressa.Sempre tive muitos medos. Agulhas, era só mais um.Pegaram em mim e amachucaram-me. Como um bocado de papel, onde se desenham dedos tortos e estrelas e bolinhas e coisinhas, das noites sem sono. E onde se escrevem coisas sentidas... Que mais tarde fazem chorar, e dão vontade de destruir cada uma daquelas letras.Um bocado de papel que se amachuca. Para esquecer.Eu fui uma folha de papel. Rasgada.

E todos se quiseram esquecer de mim.A minha mãe não me abraçou. O meu pai não me sorriu. A minha irmã não me beijou a testa.Não me quiseram explicar nada. E eu não entendi...

Quando acordei, só pude ver aquela marca feia, no peito. Que nem doía. Que nem me fazia chorar...Roubaram-me o coração e deram-no a um menino de olhos bonitos. Disseram que ele precisava mais dele do que eu. O dele era fraquinho e o meu não...Disseram que eu não o tratava bem, e que ele iria ficar melhor com ela...Não sei se alguém foi recompensado por isto.
Mas, se calhar, foram lá ao sítio onde acaba o arco-íris buscar o pote de moedinhas de ouro, e distribuíram-no pela minha família. E eles entregaram-me às coisinhas brilhantes e fininhas e pontiagudas.
Já não sinto.Roubaram-me o coração sem me pedir licença. E, agora, há por aí um menino de olhos bonitos a viver o que é meu. A sentir o que eu tinha lá guardado. A sentir(-me).Às vezes, sangra. E as paredes deixam de ser brancas.
Às vezes, oiço uma música de fundo, numa voz doce e clara. E eu acompanho-a, baixinho...Às vezes, precisava de deixar de me lembrar daquela voz que dizia ‘Fica quieta, não vais sentir nada’.Precisava dum beijinho. E dum abraço. Com cuidado...Porque há cicatrizes que já não desaparecem.

4 comentários:

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